• Decidir pelos outros

    Tomar decisões que vão interferir e/ou ter impacto na vida de outras pessoas é algo extremamente difícil, às vezes até dolorido. E quando esses outros são...

    Tomar decisões que vão interferir e/ou ter impacto na vida de outras pessoas é algo extremamente difícil, às vezes até dolorido. E quando esses outros são pessoas que você ama mais do que a si mesmo? Além de dolorido, chega a ser sofrido. Esses dias tivemos, lá em casa, que tomar uma dessas decisões que interferem na vida dos outros, neste caso, os outros foram nossos filhos.

    Por uma questão de logística, tempo e dinheiro, teremos que mudar as crianças de escola. Ficou inviável enfrentar trânsito de um bairro para outro levando 30 ou até 40 minutos para ir e para voltar. Uma decisão como está que pode ter impacto no futuro dos filhos é muito difícil de ser tomada, porque mesmo sendo lógica, é cercada de dúvidas e os desdobramentos terão efeitos que poderão ser positivos ou negativos.

    Como aqui em casa vivemos numa democracia-ditatorial, ou seja, nós decidimos, mas não impomos, convencemos, fomos amadurecendo a ideia por alguns meses que foi de pronto rechaçada pelos dois (um de 11 e outro de 5 anos). Com o mais novo os argumentos são mais simples e um bom empurrão foi o fato do parquinho na nova escola ser maior. O mais velho, entrando na adolescência, com uma convivência de 6 anos com os amigos, foi bem mais complicado.

    Depois de muito pensar nos argumentos que teria que utilizar para não ter que quebrar a regra da nossa democracia-ditatorial, e ter que impor a decisão, resolvi ir pelo caminho mais simples. Pela verdade.

    Às vezes subestimamos a capacidade de conviver com a realidade das crianças e na tentativa de poupá-los de algum possível sofrimento, acabamos os tirando o direito de viver experiências da vida que ajudarão a formar o seu caráter e que ajudariam a conviver melhor com as frustrações que inevitavelmente eles vão viver no decorrer dos anos.

    Um dia, de maré bem sequinha, fomos eu e Juninho caminhando mar a dentro e quando estávamos bem distante da areia, começamos a conversar. Expus a ele todos os argumentos que tinha baseado nossa decisão, que todos nós estávamos tendo que abdicar de algumas coisas para este novo momento de nossa vida e que seus amigos continuarão sendo seus amigos e que poderiam nos visitar sempre que quisessem e que ele agora fará novos amigos.

    Com olhos marejados ele concordou.

    Essa semana ele convidou seus melhores amigos da antiga escola para passar o dia com ele em casa. Fez convite, montou a programação completa com direito a escolher até o tipo de lanche e preparou uma lembrancinha para cada amigo. Se divertiram muito. Posso ser que essa “farra” me leve a inaugurar o caderno de multas do condomínio, mas tenho certeza que valeu a pena, para eles e para nós.

    Eu sei, mas talvez ele não saiba ou até saiba, sei lá, que alguns daqueles amigos ele dificilmente verá de novo, a não ser em encontros casuais. Com outros, a amizade prevalecerá sobre a distância, novas escolas e novas amizades, mas o que realmente importou pra nós, foi proporcionar este momento para eles.

    Num momento onde as relações são rasas, as amizades são raras e a inteiração sem ser via web são caras, viver momentos como estes, são marcantes e proporcionam experiências tão impactantes como uma mudança de escola.

    Após isso, a consciência ficou mais tranquila por tomar uma decisão pelos outros, mas que tinha que ser tomada.

    Marcos Wéric – Publicado em A União

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