• Karen e Enzo e o direito de viver

    Na madrugada do último domingo a Paraíba foi impactada com mais uma notícia de suposto descaso na rede pública de saúde, onde uma mãe teve...

    Na madrugada do último domingo a Paraíba foi impactada com mais uma notícia de suposto descaso na rede pública de saúde, onde uma mãe teve o filho em casa porque foi orientada horas antes no Hospital e Maternidade Padre Alfredo Barbosa na cidade de Cabedelo a voltar para sua residência pois seu filho não nasceria naquele dia. O menino nasceu pouquíssimo tempo depois, num parto improvisado dentro da humilde residência de sua mãe e sem atendimento adequado acabou tendo o seu primeiro direito negado. A vida.

    Na mesma semana, no mesmo Estado, na mesma rede pública de saúde (em esfera diferente) duas outras crianças tiveram destino completamente diferente do menino cabedelense que não teve a oportunidade de sequer ser batizado e já sofreu com o descaso e falta de estrutura que marca a grande maioria dos nossos hospitais.

    Karen da Silva Gouveia, de dois anos e Enzo Gabriel Ponciano, de um ano de idade, abriram os procedimentos cirúrgicos do Hospital Metropolitano Dom José Maria Pires, referência em cardiologia e em neurologia e inaugurado no início deste mês pelo governador Ricardo Coutinho.

    Karen é filha da professora Rosenilda Gouveia, de Taperoá, Cariri paraibano, e foi diagnosticada em outubro do ano passado. A mãe de Enzo é a costureira Maria de Lourdes Soares da Silva, de Itapororoca, no Vale do Mamanguape, descobriu a cardiopatia do filho após adotar a criança de uma prima.

    Ou seja, filhos do povo, de gente simples e humilde e que nem nos mais otimistas dos sonhos poderiam imaginar que na necessidade de buscar a cura para uma enfermidade grave em seres tão indefesos, encontrariam um ambiente tão moderno e humano a disposição.

    O Hospital Metropolitano Dom José Maria Pires é prova inconteste que a gestão pública pode e deve ser de excelência.

    Que num país que ainda nega o direito de sequer nascer com dignidade, é possível oferecer tratamento de ponta para enfermidades graves, mas que não escolhem suas “vítimas” pela condição financeira e social.

    Que num estado onde já viu se formar uma lista da morte, onde seus filhos esperavam apenas a hora de morrer ou então que a justiça lhe garantisse atendimento, é possível em menos um ano, embora esse ano represente metade da vida, que uma paraibana seja diagnosticada e curada de uma cardiopatia.

    Que há recursos alcançáveis quando se traça metas e objetivos e se busca os meios de conquistá-los.

    Tudo isso é possível. Basta “apenas” ser ousado e colocar o interesse público em primeiro plano.

    Oxalá que essa segunda realidade seja cada vez mais presente no nosso estado e país e que casos como o de Cabedelo onde perdemos um conterrâneo sem ao menos conhecê-lo e uma mãe perdeu seu filho sem ter tido a oportunidade de acalentá-lo em seu colo, fique apenas na nossa triste memória.

    Que todos tenham o mesmo direito que tiveram Karen e Enzo. O direito a vida.

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